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Setembro 11, 2026

À Descoberta … Revival

A Crónica de uma Participante!…

Três dias, muitas curvas e uma vontade enorme de voltar

Há viagens em que simplesmente arrancamos, sem grandes expectativas…, mas regressamos a pensar: “Porque é que isto não dura mais uns dias?”

Foi assim com o “À Descoberta… Revival”, a aventura recuperada pelo Moto Clube do Porto para assinalar os seus 40 anos. Um regresso a um percurso que faz parte da história do clube, mas que, para muitos de nós, seria uma descoberta feita pela primeira vez.

Vinte e quatro pessoas, dezasseis motos e três dias pela estrada. Pelo meio, curvas sem conta, paisagens que obrigavam a parar para observar, aldeias onde o tempo parece passar mais devagar, História, gastronomia e, claro, aquela camaradagem que só quem partilha quilómetros sobre duas rodas conhece verdadeiramente.

E, sim, entre as dezasseis motos havia três conduzidas por mulheres — desculpem, mas tinha de puxar a brasa à minha sardinha – que orgulho😊

Uma descoberta em boa companhia

A nossa base foi Castelo de Vide, a encantadora “Sintra do Alentejo”. Casas brancas, ruas estreitas, fontes, jardins, muralhas e aquela calma alentejana que nos faz abrandar… mesmo quando chegámos ali de moto.

Na sexta-feira, começámos logo com cerca de 150 quilómetros de pura diversão.

Apesar de todos termos o percurso em GPX e da possibilidade de cada um seguir ao seu ritmo, a opção foi unânime: andarmos juntos. E essa decisão acabou por dar o verdadeiro tom à viagem.

Houve gargalhadas, histórias, boa disposição e muita camaradagem. Até quando um dos participantes teve de parar para esticar a corrente (por acaso, da minha moto), ninguém arredou pé. Bem… ninguém lhe pegou nas ferramentas nem sujou as mãos — esse trabalho ficou por conta dele —, mas apoio moral não lhe faltou. 😉

A primeira grande paragem foi Marvão, empoleirada no alto da Serra de São Mamede. Subir até ao castelo já vale a pena, mas chegar lá acima e olhar em redor é outra conversa. É daqueles lugares que nos fazem desligar o motor e ficar simplesmente a observar.

Seguimos para Póvoa e Meadas, onde encontrámos o impressionante Menir da Meada: cerca de 18 toneladas, sete mil anos e uma pergunta inevitável — como é que alguém, há milhares de anos, olhou para aquela pedra e decidiu: “Vamos pô-la de pé”?, quando nós hoje precisamos de três pessoas para mudar um sofá.

A aventura continuava e, quase sem darmos conta, entrávamos e saíamos de Portugal. Não fossem as placas com os nomes das aldeias e os países misturavam-se.

Antes de terminar o dia, ainda houve tempo para subir até à Capela de Nossa Senhora da Penha, em Castelo de Vide. Isolada no topo da Serra de São Paulo, a 710 metros de altitude, recebeu-nos depois de vencermos uma íngreme escadaria… Mas o esforço compensou.

Era apenas o primeiro dia… E já começávamos a perceber que o “Revival” tinha muito mais para oferecer.

500 quilómetros de curvas, História e fronteiras

Para sábado estavam reservados cerca de 500 quilómetros. E não eram quilómetros quaisquer.

Eram quilómetros de estradinhas cheias de curvas, aldeias pitorescas, vilas de ruas estreitas e paisagens que faziam esquecer, por momentos, a distância percorrida.

Em algumas localidades, as ruelas eram tão apertadas que as motos, com malas, passavam quase milimetricamente.

A primeira paragem foi num local, a poucos quilómetros da fronteira, na província de Cáceres, num miradouro de uma pequena vila espanhola que partilha o nome com um bairro lisboeta e uma ligação histórica muito mais próxima de Portugal do que a maioria dos viajantes imagina. Falamos de Alcântara, na Estremadura espanhola. Dali víamos a Barragem e a famosa Ponte de Alcântara, construída no século II sobre o Tejo. E há um pormenor delicioso: a ponte ligava a Hispânia romana às terras da atual região das Beiras. Portanto, muito antes das autoestradas e das fronteiras modernas, já havia aqui uma espécie de “ponte internacional”.

Depois de um reforço do pequeno almoço, seguimos viagem até San Martín de Trevejo. Uma pequena aldeia da Serra de Gata, lindíssima, com casas de pedra e madeira, ruas estreitas e pequenos cursos de água a correr pelo meio. E como se isso não bastasse, ainda se ouve por ali o mañego, uma língua de raízes galaico-portuguesas.

De repente, Espanha parecia um bocadinho mais portuguesa.

Passámos também por Plasencia, cidade onde a História parece ter decidido não poupar nos monumentos: muralhas, palácios, igrejas e catedrais.

Mas seria no final do dia que chegariam algumas das paisagens mais aguardadas da viagem.

Onde a Natureza manda

O Parque Nacional de Monfragüe não precisa de grandes apresentações.

Ali, a estrada encontra uma natureza em grande escala.

Montanhas, rios, escarpas e uma quantidade impressionante de aves de rapina.

No Salto del Gitano, basta levantar os olhos para perceber quem manda por ali (e não éramos nós…)🦅.

E quando se está de moto, rodeado por tudo aquilo, há momentos em que percebemos que não estamos simplesmente a fazer quilómetros… estamos a colecionar memórias.

O regresso pela raia

Domingo trouxe-nos de volta a Portugal, mas não sem antes nos continuar a surpreender. A passagem por Ouguela, uma pequena povoação raiana onde vivem poucas dezenas de pessoas, mas onde a História nos mostrou que ocupa muito espaço. Castelo, muralhas e séculos de guerras e cercos lembram-nos como era viver numa fronteira quando esta não era apenas uma linha num mapa.

Depois veio Campo Maior, vila de história intensa e de uma capacidade extraordinária para se reinventar. Das guerras e fortificações às famosas Festas do Povo, onde as ruas se transformam num gigantesco jardim de flores de papel. Depois de tantos séculos a construir muralhas para manter pessoas de fora, descobriram uma solução bem mais bonita: decorar as ruas e convidar toda a gente a entrar. 🌸

Passámos ainda por Alegrete, onde castelo, muralhas, igrejas e paisagens continuam a contar histórias de outros tempos. Lugar pequeno, mas com aquela característica que tanto gostamos nas viagens de moto: não precisam de ser famosos para nos surpreender.

E depois há a mesa.

Ah… a mesa! 😋

Se as estradas foram excelentes, as refeições do senhor Elísio estiveram perigosamente perto de transformar esta viagem num retiro gastronómico.

Gaspacho, sopa de tomate com ovo escalfado, carne assada que praticamente se desfazia só de olhar para ela, queijos, enchidos, bacalhau à Brás… e um polvo com amêijoas que, sem exagero, foi dos melhores que já comi… Tão tenro que parecia manteiga. Tudo maravilhosamente cozinhado e regado com bom vinho (e, para algumas sortudas, uns licores 😋)

Saímos de Castelo de Vide com boas memórias, algumas histórias para contar… e mais uns quilos… Mas talvez seja precisamente isso que torna estas viagens especiais.

Uma estrada nunca é a mesma

Uma estrada nunca é verdadeiramente a mesma, mesmo quando já a percorremos. Mudam as pessoas, muda o grupo, muda o dia, muda a luz, muda aquilo que descobrimos pelo caminho.

O “À Descoberta… Revival” foi isso mesmo: uma viagem ao passado, mas vivida no presente. Uma mistura de motos, História, paisagens, gastronomia, gargalhadas e aquele convívio que só quem partilha quilómetros conhece.

Fui sem saber muito bem ao que ia… Regressei a saber exatamente que quero lá voltar…

E para quem não foi… bem, só posso dizer uma coisa: da próxima vez, não inventem desculpas… Vão… Porque há viagens que se contam.

E há outras que se têm mesmo de viver. 🏍️❤️

Crónica por Mara Silva

NR: “À Descoberta ….Revival” tem como nome oficial À Descoberta de Castelo de Vide – Revival – Antero. O Moto Clube do Porto agradece todo o apoio à CM de Castelo de Vide e à Antero Motorcycles

Para ver outras fotos clicar aqui

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