Chuva e nevoeiro deram outra beleza ao Passeio à Samardã

Quando a coragem de desafiar os elementos é compensada por paisagens diferentes e sabores únicos

Dos fracos não reza a história. Sempre assim foi e sempre assim será. Dos que têm medo de uns pingos de chuva, que abdicam de um passeio fantástico afugentados por previsões meteorológicas catastróficas, ninguém sabe por onde andaram. Já os outros, aqueles que aceitaram o desafio lançado pelo Moto Clube do Porto e pela empresa Antero para atravessar as serranias do Marão, Alvão e Padrela, ganharam um dia de incontornável memória. Onde alguma chuva e nevoeiro deram um toque único ao Passeio à Samardã, no domingo, dia 7 de abril, reforçando aura mística dos bosques a caminho das Fisgas do Ermelo. Se era melhor ter a companhia do sol, permitindo desfrutar das soberbas paisagens atravessadas? Claro que era… mas não seria a mesma coisa.

Mas é dos audazes que vamos aqui falar! Dos que chegaram bem cedo às instalações do stand Antero para ver as mais recentes novidades da BMW, Yamaha ou mesmo fazer um compra de última hora. Porque, mesmo sendo domingo, ninguém poderia ter frio nas mãos ou ser apanhado desprevenido por um qualquer aguaceiro. E com um fato de chuva novinho em folha ou umas luvas, experimentadas e comentadas enquanto se tomava um café acompanhado das já famosas natas, tempo para um rápido briefing re

cordando alguns cuidados a ter na estrada ou umas dicas sobre o percurso ao encontro dos sabores transmontanos. Tempo ainda para uma rápida foto de grupo porque a hora era de ir para estrada…

Poucos mas bons, excelentes mesmo, os motociclistas que, alinhados a rigor pela A4 atravessaram o Marão, saindo na Campeã rumo ao Parque Natural do Alvão. Estradas deliciosas ladeadas por paisagens soberbas em direção à imponente cascata de Fisgas do Ermelo, sem chuva e podendo apreciar a neve nos pontos mais altos do Alvão. Ali, onde o trabalho secular do resiliente Rio Olo, rasgou as paredes de xisto e granito, tempo para uma paragem que serviu não só para esticar as pernas, como para dar duas de conversa e encher os pulmões de ar puro. E abrir, ainda mais, o apetite para o almoço, na simpática Adega Regional Passos Perdidos onde chegaria a caravana depois de ver alguns flocos de neve mesmo ao lado da estrada, de apreciar as albufeiras criadas pela barragem do Alvão, e de desfrutar de umas quantas curvas da cada vez mais famosa N2, estrada que o Moto Clube do Porto vai atravessar de fio a pavio nos dias 10, 11 e 12 de maio!

Tempo para almoço, iniciado com muito agradáveis entradas regionais, continuando com um delicioso lombo de porco no borralho para terminar com um buffet de sobremesas que deixou alguns comensais arrependidos de ter ‘abusado’ das entradinhas e de ter repetido o prato principal. Doçaria de encantar, com sabor reforçado para os três sortudos que foram chamados a receber das mãos de Justina Aguiar os prémios oferecidos pela Antero, das luvas ao blusão BMW, passando por práticas botas Dainese. Momentos de alegria e boa disposição enaltecidos pela responsável do bem conhecido stand dos Carvalhos que sublinhou a coragem e o entusiasmo de todos os presentes em desafiar os elementos, ao contrário dos outros que, à última da hora, ficaram intimidados pela invernia.

Condições climatéricas que, longe de limitar o Passeio à Samardã, o tornaram mais… especial, sem nunca fugir ao percurso delineado. Que, depois do almoço em plena aldeia de Vilarinho da Samardã, onde viveu Camilo Castelo Branco durante um bom par de anos, seguiu por terras de Jales, famosas pelas minas de exploração aurífera e pelas marcas da passagem dos Romanos, rumo terras de Miguel Torga. Ou melhor, de Adolfo Correia da Rocha, nascido em 1907 em S. Martinho de Anta e que viria a adotar o famoso pseudónimo que assim o distinguia da profícua carreira na medicina. Atravessando paisagens que tantas obras literárias inspiraram, chegou a compacta caravana a Sabrosa, para a última paragem do programa. E que paragem…

Propriedade de um dos mais antigos sócios do Moto Clube do Porto, António Morgado de seu nome, o Lagar da Sancha produz azeite de elevada qualidade, seguindo os métodos mais naturais e tradicionais, como a extração puramente mecânica a partir de azeitona oriundas de olivais localizados em plena Douro Vinhateiro. São 1117 as oliveiras das castas Verdeal, Cordovil, Cobraçosa e Madural, distribuídos por mais de 7 hectares, que estão na origem do azeite Lagar da Sancha que brilhou na petisquice proporcionada pelo casal Morgado, onde além do dito, para prova em cru, não faltaram azeitonas locais ou os económicos, famosos bolos secos feitos com base… no azeite. Ocasião para provar um produto de enorme qualidade que muitos não hesitaram em adquirir, preenchendo aquele espaço que ainda existia nas malas da moto no regresso a casa.